O que poderia acontecer, se por acaso me perdesse em teu olhar, se por outro acaso me deixasse ser levado pelo turbilhão de emoções que perpassa e atormenta minha mente, num frenesi adolescente, me mato e me embebo em paixão, em dor, e no mais fútil clichê de um filme hollywoodiano. Que me perdoe a razão, pois a perdi a muito tempo atrás, tentando encontrar alguém pra me curar dessa loucura, mas percebi que não era doença, mas faltava, sempre faltou... Faltou sentimento, alma, esperança, faltou você.
Eu desisti de tudo muito rápido e assim foi minha derrocada, tão singela e implacável. Caí como um brinco de uma moça qualquer que se perde na imensidão de um momento de prazer. Essa mesma moça também perdeu outra coisa: deixou cair em algum buraco meu coração, agora não há quem encontre essa parte que me faz tanta falta, e que me impede de perceber alegria ou esperança em cada potencial que desperdiço, vivendo como um lunático que come as unhas na ânsia de encontrar algo que me ajude, ao menos.
Não vou te pedir pra procurar, porque acho que tu também não deves saber onde ele está, e nem se deu ao trabalho, foi logo atrás de outro e roubou pra ti. Assim vai, se esvaindo minha juventude em tempos ermos, vou tentando me encontrar pra nunca mais viver assim, mas me acomodo e inclusive abraço essa solidão, que volta e meia faz questão de companhia, eu. Não me pergunto até quando isso vai durar, mas como isso vai acontecer. Vou continuar a andar com esse buraco do lado esquerdo, e vou continuar expondo minha ferida, pra todas as outras que me conhecerem, pra ficar bem claro, que um dia, eu amei com todo esse coração, que já foi cheio de alegria e amor, diferente do medo que me assola e me corrói, destruindo a capacidade de ser ingênuo, de perceber leveza e carinho em gestos simplórios. Afasto qualquer tipo de oportunidade valiosa pra me perder e me espreitar em caminhos sinuosos que vão acabar me levando a uma falência múltipla de órgãos. E se espalha, como um câncer que faz mais uma vítima incapaz. E a realidade aparece como um anti depressivo, cheia de efeitos colaterais. Além de toda debilitação, também perdi minha alma no caminho, mas diferente do meu coração, que não pretendo achar, quero um dia esbarrar na minha alma de novo e perguntar a ela que caminhos tomou e como nos encontramos. A pretensão de um dia poder voltar a viver plenamente é que enche meus pulmões, congestionados de fumaça, de algum tipo de esperança pífia, que apesar do adjetivo, tem efeito considerável.
Minha reabilitação é a noite.
Veja nos meus olhos, o medo, a desconfiança e o desgaste de uma madrugada pensante e insuportável. As lamúrias inconvenientes que simplesmente invadem a lucidez, a espancando e despachando num vazio esquizofrênico que exala nostalgia. Se a memória não estivesse do meu lado ao tempo todo, tomando café, fumando comigo, possivelmente estaria são e saudável, apenas com as marcas de uma cirurgia bem sucedida. Mas não, preciso viver com essa hemodiálise que insiste em se agravar, mostrando a instabilidade da saúde de mais um moribundo apaixonado, que também insiste em se curar, demonstrando, ainda que de maneira despercebida, estalos de lucidez e harmônia. Me posiciono a favor do sorriso, que quase não acho depois de ter perdido o teu na caminhada, mas vejo a saída um pouco mais longe, ainda estou na maca, internado, sob intensa observação. Não recebi nenhuma visita, nenhuma rosa, nem bom dia da enfermeira, ninguém espera minha melhora pois já fazem suposições de um possível velório, previamente marcado. Vou decepciona-los, fugir, sorrir, viver e amar, como nunca amei, como nunca vou amar...
- Guilherme Pollaco
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