Que existência pragmática, rotineira e pútrida. Muito tempo gasto em um cubículo no melhor estilo "clean", com as minhas tatuagens cobertas por uma manta mentirosa de moral e comportamento conservador, teatralizando normalidade, submissão e profissionalismo. É, você caiu no clichê da vida adulta, bebendo cafés indigestos pois é o mais próximo da doçura que podes encontrar em tua pífia existência, queria ser uma máquina, pois acaba de se tornar mais uma engrenagem, sem gosto, sem cheiro, sem cor, como uma bolacha de água e sal, porém, sem água, e muito menos sal...
Ridiculamente marchando para um viver irrisório e triste, começo a comer as minhas unhas, ao invés de roê-las, uma vez que é ação mais divertida disponível nesse mundo de hipocrisia e vassalagens disfarçadas. Não há nada de interessante, não há vida, não há respiração sequer, me parece que até o oxigênio que respiro está embutido e advém de um ar condicionado, centralizado na sala branca com azul. Sinto-me mais como um fantoche, obrigado a permanecer 5 horas sentado, mais duas horas em um trânsito tão estressante quanto a minha existência, e ainda por cima escuto os sermões das gerações passadas que se orgulham de meu cargo em um órgão público, como se eu estivesse marchando sob os comandos da boa e velha sociedade brasileira, orgulhosa de mais um filho inútil dessa pátria sodomizada e torturada pela mesmice e pelo conformismo, conformismo este que afeta a todos os polos de nossa sociedade, de forma endêmica e cabal. Nos tornamos cegos e satisfeitos pelo simples fato de não ter que lidar de forma direta com esses problemas aterradores que nos destroem, afinal não há motivo para se preocupar com pobreza, miséria e afins. Carros, viagens e celulares confortam nossas necessidades imediatistas e supérfluas, de modo a anestesiar a percepção, trazendo o ser para um estado de letargia, onde ignoramos as mazelas e pertubações existentes de uma maneira tola, somos órfãos de uma organização falida e corrosiva.
Vivemos em uma burguesia mascarada por aquisições materiais incoerentes e fúteis, é um defeito demonstrar profundidade e preocupação com a falência múltipla de TODOS os nossos órgãos, como uma debilidade física degenerativa, a futilidade se tornou padrão, é o pilar, a base e alicerce para um modelo boçal e inconstante, aplicado por seres igualmente imbecis e tolos, onde a crença no conforto e segurança necessita de muros cada vez mais altos e tecnologias cada vez mais segregadoras para se fazer eficaz. Não se exercita mais o ato de inovar, o ato de criar, o ato de poder arriscar a existência em prol da experiência, não se quebra o padrão, não se grita depois das 22:00, o sistema é inquebrável, os discursos contrários são taxados como "oposição", como discurso de ódio, político, as justificativas se tornaram infundadas e pouco dotadas de coesão. O tumor maligno que assola nosso viver nos deixou em estado terminal, não há salvação, muito menos redenção, seria mais fácil desligar os aparelhos e deixar o último sopro torpe de vida se esvair de forma rápida e indolor. Somos obrigados a pagar uma vida inteira de labor para podermos obter o privilégio de aproveitar, quiçá, 10 anos de nossas fúnebres vidas, já idosos e debilitados, com as faculdades mentais e físicas completamente restritas, arrependidos de mais da metade do tempo despendido com afazeres pouco satisfatórios.
Já não possuo mais paciência, calma ou unhas, com pouca idade me vejo deprimido, tenso e estressado, me atiro em solidão, silêncio e resignado ao fracasso, aguardo tenuemente o final tortuoso e dolorido desta lúgubre caminhada que é respirar, com dificuldade, num estágio crítico e avançado de asma, quase como uma nova perspectiva tuberculosa e moribunda que me ataca veementemente, sem chance para defesa ou reação, é o efeito dominó, e tu és a última peça.