domingo, 11 de agosto de 2019

Internação

NOTA AO LEITOR: SE POR UM ACASO TU ÉS UM BEATNIK, BARROCO, HEDONISTA, CULT, SENSÍVEL OU CRÍTICO DE ARTE, ACHO MELHOR NEM COMEÇARES O TEXTO, POIS AQUI HABITA A HIPERPLASIA DE MEU SOFRIMENTO.

Quebrei meu tornozelo em três partes, fratura exposta, isso fora os pontos nos dedos, queimaduras nas pernas e lacerações no corpo inteiro, até uma equimose pelo peso do gesso eu adquiri. Cheguei ao fundo do poço e ainda cavei um buraco. O contexto não interessa, de fato, não por orgulho ou nada, mas não é o cerne que pretendo trazer à baila em tal imbróglio, pois o que se busca aqui é tão somente a percepção que adquiri de que nada está tão ruim que não possa piorar, e quando digo piorar falo de maneira vertiginosa e vou me fazer cristalino até o final deste.
Sim, já me machuquei eventualmente, mas não como agora, os médicos acabaram de passar aqui e eu não tenho esperança, nenhuma. vou ter sequelas. Fui tomar banho, quer dizer, me deram um banho, e eu nunca me senti tão humilhado na vida, nunca me senti tão vulnerável, tão triste, tão sodomizado, se tu achas que pedir dinheiro a alguém é humilhante, imagine a sensação de não poder dar descarga, de não poder lavar o próprio rosto, é inigualável.
Os médicos lhe tratam com uma frieza ímpar, de uma forma tão desumana que beira a distopia. Vejam um cidadão todo lacerado e machucado pela vida e pelos traumas que sofreu, que sequer pode andar, sequer pode pentear o cabelo com a mão hábil porque a mesma possui uma agulha enterrada e a outra um furo vermelho desgastado de tantos medicamentos. Eu perdi tudo, absolutamente tudo, não possuo mais o respeito de ninguém, sou o mais jovem na sala de pré cirurgia, o mais agoniado, o mais triste, ninguém me respeita, porque não há o que respeitar em mim, meu ser se tornou esquálido, inexistente, cinza e pútrido. Não tenho mais dignidade, não tenho mais amor próprio, não tenho mais paixão nem admiração sequer pelo meu corpo, não que houvesse muita antes, mas exauriu, c'est fini. A derrocada para o fundo do poço foi mais rápida do que pensei, bati um recorde no timing, superei todas as expectativas do fracasso, da morte, da falha, da tristeza, da solidão, só de olhar para o meu pé sinto asco, de mim, como um todo, um ser eivado de sujeira, de podridão. Enlouqueço a cada minuto que passa aqui, já não consigo disfarçar a ansiedade, não tenho mais o que fazer, não tenho mais o que sentir, jogo minha massa cinzenta em textos vazios e paranoicos, me acabo em mim mesmo, me arrependo a cada segundo de minha pífia e inútil existência, sou o lixo, o chorume, o bacaca, o resto que mereço ser, o aborto mal sucedido, o peso na vida de todo mundo. Queria tanto ser o vilão que virei o pária, virei o nada, o esquecido, o renegado, a escória, agora só me resta esperar a corrosão do tempo, da alma, e pior, do cérebro, que anda me maltratando, me espancando a cada momento da minha vida, a vergonha, me sinto fraco, sujo, emasculado, tolo.
Adquiri o hábito de descascar as feridas do meu corpo, num ínterim de lacerar mais meu corpo, noutras de tentar cicatrizar de forma ignóbil e tola as marcas infinitas em minha pele, sinto o gosto de farmácia em minha boca, sinto o desprezo dos que me cercam, sinto o desprezo dos que estão lá fora, apenas pensando em si, apenas focando em si, minha presença não interessa, minha falta não é notada. Alguns até tem dó, pena, se padecem de forma genérica e comedida de minha fúnebre situação, porém, prefiro mantê-la em sigilo, não quero mais azar do que já contraí, se é que é possível. Sigo como uma bailarina russa, em Vladvostok, dançando e acompanhando as nuances da ópera, onde saio do ápice para o cume numa reviravolta homérica digna de fazer inveja a Shakespeare e descompassar até mesmo Rezso Seress, e pasmem, ser mais lúgubre do que Giovanni Bragolin, em cada uma das lágrimas de suas crianças. Sou o que se chama de sinfonia do fracasso, ode ao trágico, exaltação ao desespero. NÃO, NÃO ESTOU ME VITIMIZANDO, SÓ PASSO PELO MOMENTO MAIS CONSTERNADOR DE MINHA VIDA, ESTOU SEM SAÍDA, SEM FÔLEGO, SEM PERSPECTIVAS, SEM NORTE.A CADA AÇÃO AQUI NESSE HOSPÍCIO EU SOFRO MAIS, ME DECOMPONHO MAIS, MINHA DIGNIDADE NÃO EXISTE, DEPENDO DE PESSOAS QUE NÃO CONHEÇO PARA TUDO, MEU DEUS QUE EXÍLIO PURGANTE...
Não consigo realizar minhas necessidades sozinho, não faço nada além de passar o dia todo deitado, lendo, escrevendo, pensando, chorando, me arrependendo, pensando em todos que estão vivendo suas vidas incríveis, motoras e ativas, as faculdades voltando, trabalhos, e eu aqui esquecido no ostracismo como uma tragicomédia de Nietzsche, como o final de vida de Ernie Hemingway, como a última garrafa de  Bukowski. Não tenho o que fazer, o que pensar, além de me arrepender e deixar a ansiedade, paranoia e depressão me corroerem, como o pior ácido sulfúrico existente,, apenas sentindo as relações interpessoais se esvaírem aos poucos, grão a grão, assim como minha vida, assim como meu gosto pela ternura do viver, que já existiu em outrora.
Me sinto volta e meia, claro que não no mesmo nível pasmem, como o protagonista do filme Como Eu Era Antes de Você, filme este que me foi apresentado pelo amor de minha vida, a alma mais doce que tive o prazer de conhecer, a figura mais etérea, harmônica e contumaz já existente, tão fluída quanto a Sonata número 08 em dó menor de Beethoven interpretada por Stephen Kovacevich, enfim, são comparações até inocentes em virtude da magnitude desta beldade única em um jardim de flores raras, onde se destaca com facilidade, não precisando de atenção, mas de muita sensibilidade.
Voltando ao filme, me sinto como um decrépito, egoísta, turrão, mal humorado, desprezível  e amargo, que necessita de atenção o tempo inteiro, ainda que de forma distorcida, horrenda e terrorífica, me deixando levar pelo Caronte para as profundezas mais sombrias dos mares inóspitos de Hades, afogado em cinzas e morte, carregado de trevas. Volta e meia por meu mal humor, trato mal algum ente querido, verbalizo alguma paranoia, enalteço a depressão, me sinto fugazmente ansioso, e acabo perdendo o pouco que me resta de humanidade, de contato com o mundo externo, e isso me destrói, me destroça, seja lá como quiser.
Peço perdão a todas as pessoas que tratei mal, que desgastei, destratei, que de alguma forma eu causei transtorno ou maleficência, sinceramente, e posso vos dizer que estou pagando por todo o mal que fiz, neste exato momento em que vos escrevo, como a sinfonia de Prokofiev, alterno entre escuridão e altivez, mas nunca felicidade, nunca alegria, pago pelos meus pecados inconsequentes amargurado, querendo sentir o sabor tirânico da morte, tentando provar de uma vez por todas que não mereço a existência, debilitado não consigo me conter dentro de meu decrépito corpo, não me controlo, tenho espasmos noturnos, pesadelos, como em um filme de Hitchcock, como um caminhão desgovernado... Me sinto como mais um que fracassou, mais um perdedor. Aqui os velhos gritam durante a madrugada, num quarto compartilhado, cheio de calor, suor, loucura, onde não há um minuto de paz, não existe "hora para dormir", se alguém resolver pirar que se foda quem está ao seu lado, que se  foda a regularidade, todos entram e saem na hora em que bem entendem, num frenesi onde acompanhantes conversam alto enquanto pacientes tentam dormir. Velhos amputados gritando, velhos com pinos no joelho dando risada e roncando alto, enquanto um outro com bolsa de colostomia (pobre senhor) não consegue conter as necessidades e infesta o ar com tal odor. Tudo aqui é doído, tudo aqui é um processo, nada é natural, as pessoas não ligam de fato pra ti, se curar ok, se morrer, mais um, ó trabalho, aqui ninguém tem amigo nenhum, é simples assim. Num dia tu estás bem, no outro um inferno, um caos, não há constância, não há ordem, lógica, métrica, matemática, resultado possível, são vômitos e gritos quase que o tempo todo, pense num mix de hospício, com presídio, com hospital, tudo em péssimas condições, com um péssimo tratamento, desumano, inóspito por assim dizer, e não ouse ficar beligerante, pois o caos e a indiferença podem te engolir. É tudo tão sórdido, tão caótico e dantesco, que não vislumbro pior cenário do que esse. 
O que me faz respirar e manter um pouco a sanidade é a minha honesta e dedicada família.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Brasília - Chernobyl

Brasília. Cidade fria, solidão é corriqueira. Terra da indiferença, do frio seco e cortante que rasga minha cara, meus lábios e sangra minhas narinas, minha garganta e me desidrata. Paredes pichadas, pessoas tristes, ansiosas e depressivas, acima de tudo, pessoas cheias de vírgulas e vazios... O sangue que escorre de minhas narinas e meus lábios advém dos pensamentos funestos e suicidas que perpassam minha mente segundo a segundo, minhas unhas não aguentam o ritmo ansioso de minha cabeça, que mais parece Chernobyl, uma usina exalando radioatividade. Para sempre e como sempre hiperbólico, me vejo cercado de futilidades tão banais que preenchem inutilmente o vazio que é existir, ainda mais em Brasília. Se em São Paulo não existe amor, em Brasília não existe nada. Um momento: existe sim, porém, não é nada agradável ou romântico. Existem grupos pré-formados de amigos plásticos e superficiais (panelinhas se quiser assim chamar), cheios de opiniões próprias e propostas políticas idealizadas, tão mal vergastadas em bares e festas da região central da cidade. Bares e festas estas, que são tão cotidianas que se tornam o maior atrativo da vida de tais pessoas, sendo a epitome da tristeza, uma vez que o torpor de tais eventos garante a plasticidade da rotina, sendo melhor viver entorpecido do que aguentar a "cruel realidade".

Não, não estou difamando a cidade da arquitetura moderna e corrupção endêmica, a capital, estou apenas expressando o que é viver aqui, o que é ser tão inseguro com certos posicionamentos, o que é ter medo de uma sociedade tão fria quanto o clima de junho/julho no cerrado brasiliense. 
A juventude brasiliense dos millenials (Geração Y), que antecede a vigente (Geração Z) tem sim ideais mais progressistas do que nossos pais, entretanto, também tem opiniões rasas e imaturas em diversas searas, e assim como em Chernobyl, tais opiniões as vezes tão veementes, são tóxicas. 
A insensibilidade e falta de compadecimento (empatia) em alguns setores é quase uma agressão física, tendo em vista que o brasiliense se torna mais egocêntrico e indifente do que a maioria de nosso país, de forma específica. O tratamento com algumas profissões mais "comuns"(garçons, motoristas, cobradores) em diversas situações beira o absurdo, e digo isso amigos de cadeira, pois já estive em tal posição. 
A futilidade e necessidade de atenção pífia que toma conta de nossos jovens é aterrorizante, um abismo de compras e conversas inúteis, que cada vez mais se tornam padrões de comportamento repetidos. O status toma conta da personalidade, o ter se torna o ser, e assim rumamos para o fracasso da ansiedade, depressão e transtornos múltiplos de personalidade. Não temos mais formas sinceras de demonstração de amor e carinho, apenas representações cibernéticas que são mais valorosas do que as presenciais.
Falhamos enquanto humanos, não só em Brasília ou Chernobyl, mas falhamos com tons lastreados. 
De tal forma, deturpamos o sentido de Ode, transformando-a em um canto triste e lúgubre, num poço de aparências fúteis, superficiais e idiotas, bradamos o ridículo, cegos e inexatos, fracassando sem ter a mínima noção de sucesso, e assim nos destinamos a uma catástrofe inexplicável, que é viver sem ter sentido, sem plenitude, a radiação de imbecilidade e idiotia tomou conta de nossos cérebros, pulmões e corações. Seguimos felizes na ignorância, na certeza de sermos rasos e egomaníacos. Portanto, não julguem os depressivos, os ansiosos, os transtornados, pois talvez o maior transtorno seja assistir o fracasso fútil de uma gama da sociedade sem poder fazer nada...E somos eternamente tristes na sabedoria. Ilhados em nossos posicionamentos tão fortes e contundentes, não percebemos que somos a maior massa de manobra já existente, pseudopensantes, pseudoTUDO, com rasos conhecimentos e muita opinião, embebidos em razão em nossas cabeças, porém, cheios de estupidez e reatividade, certamente. Necessário se faz uma reforma mental, aprofundar os conhecimentos e fatalmente obter alguns outros, para que haja uma análise profícua e perfunctória de variados assuntos. Devemos nos debruçar de maneira sincera e intensa aos nossos interesses e opiniões, buscar a parcimônia, razoabilidade, proporcionalidade, coesão e coerência em nossas palavras. Em suma, não devemos conceber vômitos sociais pouco embasados, sem fulcro algum, apenas opiniões de ódio, preconceito e burras. Estudar e avaliar nossas palavras, de modo a abalizar o conhecimento com provas, com ciência e destreza! Sem medo do terror que é a falta de conhecimento. 
Caso tenha sentido ódio ou desprezo por minhas humildes palavras, eu tenho uma má notícia...   


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Pluralismo Personificado

Roendo as unhas, ouvindo Nirvana, sentado sozinho na biblioteca da faculdade, ensopado da chuva que tomei no caminho pra cá no único dia em que decido deixar o carro em casa para sair de ônibus. Levando em conta que não durmo a 2 dias, a situação poderia estar  pior, porém, quando olho para os lados apenas vejo lúgubres sombras que sussurram coisas tão horríveis em meus ouvidos que sequer as citarei. 
Não, eu não caí no clichê do "vitimismo depressivo", tampouco peço por pena ou compaixão, sei bem da minha sina e de minhas tomadas de rumos. Creio que pelo contrário, estou cada vez mais compreendendo meu pluralismo personificado, minhas luzes, minhas trevas e limbos, claro, a passos curtos, mas caminhando. 
Diferente de outrora, não tenho mais medo de meus demônios, os vejo como "almas" perdidas procurando seus caminhos, assim como este que vos fala. Agora enxergo na escuridão, aguço meus sentidos nela, afinal, claridade demais também cega. 
Encaro as batalhas com mais empatia, toda vez que os antigos demônios tentam me machucar, lanço um olhar sobre as antigas cicatrizes, de batalhas ulteriores buscando evolução, não me autossabotando como costumava fazer. 
De tal forma, vou aviltante para a guerra que é crescer, entender que se não é recíproco, não é nada, que é importante sentir a ferida alheia para poder medir o peso da pena, a intensidade do pulsar cardíaco. Reflito sobre a origem de tal postura, de tal abertura mental, e percebo que o tato empático/humano adveio de minhas lutas e conquistas com uma pessoa muito especial, e pasmem, não só isso, como também de minhas experiências para com terceiros, que as vezes eram ruins ou boas, mas acima de tudo, experiências, aprendizados, vivências. 
Como já dizia um sábio ditado: "c'est la vie". E é mesmo, e deve ser assim, não puxo pra baixo, nem pra cima, vou sempre em frente, buscando progressismo, por mais que a depressão e a ansiedade tentem carcomer todas as células restantes em mim, eu adquiri o poder de criar novas, exatamente: criar. 
O caminho é tênue, árduo, mas não impossível, e vou provar para mim mesmo que consigo evoluir, não para perpetuar qualquer tipo de experiência volátil, mas para que eu consiga deitar cada dia da minha vida, seja pela manhã e a noite, e respirar bem dentro de meu próprio corpo. Como se numa sequência orgástica de epifanias eu conseguisse encontrar meu Nirvana, e não a banda grunge dos anos 90 que supra mencionei, mas sim uma catarse de sentimentos, sensações e emoções quem me levasse a descobrir minha essência, é a minha Ilíada, me deparar comigo mesmo. 
Perpassa na minha cabeça como se fosse um exílio voluntário de meu físico com minha psique, uma terapia conjunta de mim mesmo. Paradoxal, não?! Pois é meus caros amigos, é exatamente isso que rasteia minha mente, não só isso, mas creio que consegui explanar a antítese psicológica dentro de minha pessoa, ou pessoas. 
Pois bem, entendo que as lamentações, paranoias e descargas emocionais existam e convivam muito bem dentro de mim com a minha pacificidade, com minha congruência, com meus pensamentos serenos e positivos, dual, plural, personificado. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

Astro de Luz Própria

É tão estranho, me sinto como uma simbiose que ataca os hospedeiros e lhes suga a vitalidade, e assim segue rumando para pensamentos funestos e lúgubres. É como se o amanhã não existisse, e tampouco o sol, esse astro que dizem aquecer os corações das almas vazias, ou abrilhantar os quilômetros extensos dos rios, lagos e mares. Pois é, esse sol deixou de existir na minha vida, é algo curioso, pois o seu sumiço afetou não só este coração vazio que vos conta, mas fez milhões de vítimas nesta última semana. 
Tão abrangente e impiedoso foi o desaparecimentos do sol para algumas pessoas que criou não só tristeza e solidão, mas também infestou nosso mundo com discórdia, intolerância, ódio, preconceito e rancor, deixando um rastro de destruição onde se sentisse a falta deste. 
Contando os feridos e as baixas, os desalmados seguiram para uma realidade distópica e vertente, calcada em pilares corruptos e sujos, cercada de putrefação social, implorava-se pelo fim do mundo e, de fato, seria bem melhor do que viver na escuridão insólita e enfadonha do qual nos encontrávamos. 
O cheiro que se sentia na verdade era um fedor, mas por ser a menor das preocupações se tornava agradável, e o maior prazer que se podia ter era a erma e falha lembrança dos dias que foram melhores, perfeitos na verdade, porque depois de conhecer esta realidade psicótica e odiosa o inferno nos parecia uma boa ideia. 
Conseguinte, seguimos marchando ao nosso fim que pouco importava naquele momento, o que nos incomodava era o fato de morrer sem sentir pela última vez o calor penetrar em nossas dermes, sendo brindados com o privilégio de sermos iluminados pelo agressivo astro solar e, acima de tudo, poder sentir esperança num futuro que na atual conjuntura parecia mais do que utopia, parecia até prepotência ter este tipo de esperança. 
A nossa crença existe por vários motivos, um muito latente em nossas vidas especificamente: o medo da morte. Não saber quando de fato vai se encerrar o ciclo, se este se renova, a maior surpresa da vida é a morte. 
Neste período de cinzas e sofrimento o maior medo que reinava era da própria vida, que castigava os miseráveis desalmados, e a única crença que se alimentava e prosperava entre nós, os incautos castigados, era a de que com certeza haveria mais sofrimento. 
É neste cenário desastroso e grotesco, onde não há sequer o sol para derreter as geleiras de tristeza que tudo parece desabar, onde tudo que um dia foi bom se escondeu na mente cansada de um velho decrépito, acometido pelo mal de Alzheimer, velho este que se adoentou pela ganância, avareza, luxúria, que sofre diariamente por suas escolhas repulsivas e egoístas do passado. Este senhor deprimente representa nossa sociedade, com um arrependimento sagaz e devastado, um adolescente que envelheceu da pior forma possível, que foi sempre mimado, que nunca ouviu uma negação, que sequer teve uma escolha difícil a fazer, e mesmo com esses mecanismos facilitadores se tornou um ser intragável, cheio de si e precipuamente megalomaníaco. 
Sociedade demente, fútil e imbecil, que valoriza coisas que não pertencem a categoria de valores sequer. Despreza o amor, a lealdade, a amizade sincera, que ignora as coisas simples para valorar costumes repulsivos; sim nós sentimos algo incontrolavelmente repulsivo por esta situação. 
Era tão simples, mas tudo se complicou, existe um ditado que explicita: "Só se dá valor quando se perde". Agora tudo faz sentido, porém, não faz diferença, não existe a mera possibilidade de pensar em retornar, seria muita audácia pensar, ponderar ou cogitar isso. 
Então, a sinfonia do fracasso dá início a cerimônia nem tão solene, o colapso de todos nós é cada vez mais eminente, lágrimas tão inúteis, gritos de desespero e clamores por piedade já são corriqueiros, discursos de grandeza e liderança já são considerados um sacrilégio, blasfêmia, heresia e totalmente puníveis (como se houvesse punição pior do que a corrente). 
Pois é meus caros, agora entendemos por quê o sol foi embora, e assim o coração vazio do velho decrépito parou. 
P.S. Para aquele que quiser ousar, ser audacioso, e ultrapassar a barreira de sucumbência do sol, tenha esperança pois sempre haverá uma saída otimista que pode levar ao caminho da prosperidade e paz. Se o sol se retirou, confie na luz que emana da Lua, astro de luz própria. 

Guilherme Pollaco

terça-feira, 7 de junho de 2016

Efeito Dominó

Que existência pragmática, rotineira e pútrida. Muito tempo gasto em um cubículo no melhor estilo "clean", com as minhas tatuagens cobertas por uma manta mentirosa de moral e comportamento conservador, teatralizando normalidade, submissão e profissionalismo. É, você caiu no clichê da vida adulta, bebendo cafés indigestos pois é o mais próximo da doçura que podes encontrar em tua pífia existência, queria ser uma máquina, pois acaba de se tornar mais uma engrenagem, sem gosto, sem cheiro, sem cor, como uma bolacha de água e sal, porém, sem água, e muito menos sal... 
Ridiculamente marchando para um viver irrisório e triste, começo a comer as minhas unhas, ao invés de roê-las, uma vez que é ação mais divertida disponível nesse mundo de hipocrisia e vassalagens disfarçadas. Não há nada de interessante, não há vida, não há respiração sequer, me parece que até o oxigênio que respiro está embutido e advém de um ar condicionado, centralizado na sala branca com azul. Sinto-me mais como um fantoche, obrigado a permanecer 5 horas sentado, mais duas horas em um trânsito tão estressante quanto a minha existência, e ainda por cima escuto os sermões das gerações passadas que se orgulham de meu cargo em um órgão público, como se eu estivesse marchando sob os comandos da boa e velha sociedade brasileira, orgulhosa de mais um filho inútil dessa pátria sodomizada e torturada pela mesmice e pelo conformismo, conformismo este que afeta a todos os polos de nossa sociedade, de forma endêmica e cabal. Nos tornamos cegos e satisfeitos pelo simples fato de não ter que lidar de forma direta com esses problemas aterradores que nos destroem, afinal não há motivo para se preocupar com pobreza, miséria e afins. Carros, viagens e celulares confortam nossas necessidades imediatistas e supérfluas, de modo a anestesiar a percepção, trazendo o ser para um estado de letargia, onde ignoramos as mazelas e pertubações existentes de uma maneira tola, somos órfãos de uma organização falida e corrosiva. 
Vivemos em uma burguesia mascarada por aquisições materiais incoerentes e fúteis, é um defeito demonstrar profundidade e preocupação com a falência múltipla de TODOS os nossos órgãos, como uma debilidade física degenerativa, a futilidade se tornou padrão, é o pilar, a base e alicerce para um modelo boçal e inconstante, aplicado por seres igualmente imbecis e tolos, onde a crença no conforto e segurança necessita de muros cada vez mais altos e tecnologias cada vez mais segregadoras para se fazer eficaz. Não se exercita mais o ato de inovar, o ato de criar, o ato de poder arriscar a existência em prol da experiência, não se quebra o padrão, não se grita depois das 22:00, o sistema é inquebrável, os discursos contrários são taxados como "oposição", como discurso de ódio, político, as justificativas se tornaram infundadas e pouco dotadas de coesão. O tumor maligno que assola nosso viver nos deixou em estado terminal, não há salvação, muito menos redenção, seria mais fácil desligar os aparelhos e deixar o último sopro torpe de vida se esvair de forma rápida e indolor. Somos obrigados a pagar uma vida inteira de labor para podermos obter o privilégio de aproveitar, quiçá, 10 anos de nossas fúnebres vidas, já idosos e debilitados, com as faculdades mentais e físicas completamente restritas, arrependidos de mais da metade do tempo despendido com afazeres pouco satisfatórios.
Já não possuo mais paciência, calma ou unhas, com pouca idade me vejo deprimido, tenso e estressado, me atiro em solidão, silêncio e resignado ao fracasso, aguardo tenuemente o final tortuoso e dolorido desta lúgubre caminhada que é respirar, com dificuldade, num estágio crítico e avançado de asma, quase como uma nova perspectiva tuberculosa e moribunda que me ataca veementemente, sem chance para defesa ou reação, é o efeito dominó, e tu és a última peça.   

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Primeira Noite

 Sabe quando tu acha que nada pode dar certo pra ti?! Que o destino decretou fim e ponto final?! A vida parece caminhar para mais um momento soturno e distante dos sorrisos, estar pensativo se torna meu estado natural, o pensar nas consequências de tal época me fazem arrepiar, suar frio, e desacreditar. O fim de uma era áurea e regada a bons frutos, o início de uma era negra, sombria e obscura, que tende a me violentar constantemente, com esses desatinos dos quais a gente nunca espera, essa forma bisonha e grotesca que a vida tem de nos deixar pra baixo e relutante, desde o momento em que abrimos nossos olhos, até o momento em que o fechamos novamente para dormir. 
Pois é, esse mal do século tem me acometido, de maneira atroz e corrupta, encerrando minhas alegrias, tolhendo minhas esperanças, e arrancando de mim as paixões e prazeres da vida. Sei naturalmente que existem pessoas com problemas mais graves e sérios do que os meus, mas não posso deixar de analisar que os meus problemas são de uma gravosidade diferente, esses problemas me assolam a mente, espancam meu sono, vivem estapeando minhas esperanças, além de inibir e me iludir sobre possíveis amores e oportunidades. Parece torpe, banal e ingênuo,mas a partir do momento em que esses problemas se tornam intrínsecos a ti, e começas a perceber que não existe mais o que fazer acerca de tal assunto, tu vais ficar desesperado, perder aquilo que conquistastes, e batalhastes por isso, mas infelizmente, o sopro que a vida lhe deu foi em direção contrária. 
Estigmatizado pela vida fúnebre e sombria que levo, me atiro em sarjetas que ilustram contextualmente minha situação, me envolvo em situações de extrema insanidade mental e física, além de primar pela auto-destruição como um princípio basilar de vida. Carteiras de cigarro jogadas num mezanino, garrafas aleatoriamente distribuídas pelo quarto, e uma garota que dorme nua em minha cama, ainda sentindo a ressaca da noite anterior, noite esta que foi tão imprudente que não conseguimos contabilizar o número de garrafas despendidas nessa maquiavélica aventura carnal. 
Uma nota sobre a noite: Naturalmente afrodisíaca, com os perfumes femininos e risadas embriagadas, atraí os boêmios para um antro de perdição neurótico, com amores plásticos e garrafas de vidro, mulheres desgarradas e homens perdidos, sinto o cheiro do teu ódio exalar do coração, mas não está noite, onde me tens, e não está em solidão.
Podemos nos sentir o maior lixo deprimido que esta terra já viu, porém, quando nos abraçamos com a escuridão que segue cada letreiro de boate fétida e insuportável que nos chama, como num hino, disfarçamos nosso rancor, ódio e súplica por amor, num disfarce, de alter-ego, maníacos por carne, luxúria e prazer, soltos em um barril misturado com sangue, suor e desejo. Nos alimentamos de almas, sejam elas puras ou corrompidas, porque a partir do momento em que conhece um boêmio, uma alma se corrompe, ainda que este seja um buda, mas a noite não admite inocência. A noite é como a praga que infesta tua casa, mas por algum motivo extraterrestre, se torna uma simbiose e cativa todos os teus pensamentos. Nada melhor do que a noite, para curar sentimentos ressabiados dentro de uma mente sodomizada por uma paixão, nada melhor do que a noite para unir um casal que acaba de se conhecer, nada melhor do que a noite para poder abrandar sensações de culpa e rancor, além de sentimentos de amor, e nada melhor do que a noite para se despedir. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Tranfusões

Ultimamente, afásia e dúvidas constantes vem assolando o meu viver. Mas tudo bem, ao passo que me sinto e me torno cada vez mais sério, engessado, e pouco receptivo as interações que agora parecem muito estapafúrdias, e pouco aproveitáveis. 
Os olhares, a disputa da carne, o cerco que os homens fazem as mulheres, em busca de algo extremamente pífio e carnal, agora se torna vulgar e descartável sob o meu ponto de vista, o mundo cada vez mais se importa com questões pouco pontuais, e nesse passo rumamos para o triste desatino que é o fracasso. Fracasso. Fracasso. Regado por maquiagens tão superficiais, cabelos bem produzidos, frases de efeito que parecem ter saído da novela das nove, quanto o sorriso que outro dia recebi, de um olhar que passou despercebido. 
Perdeu-se a sensibilidade, o calor e o amor. Vivamos o tempo em que a religião é mais importante que o caráter, que o bolso é mais valioso do que os princípios, que o prazer é mais importante que a paixão. Onde a verdade é escondida e a mentira colocada num pódio, como sinônimo de orgulho, e ainda que a falsidade é motivo para sorrir, completamente corrompidos estão os cidadãos de bem, que não possuem mais o discernimento de encarar a podridão que infesta esse planeta, os esgotos que são as veias de nosso sub-mundo, cada vez mais se enchem de algo que é muito pior do que lixo: são os cadáveres de nossas crianças, atirados numa vala, cheios de resíduos de rancor, ódio, sofrimento, tristeza, raiva, violência e junto com tais cadáveres, está o nosso futuro, estuprado, violado, corrompido, violentado, reprimido, isolado, apedrejado junto com nossas esperanças, neste momento representadas por pombos, que antes eram brancos, mas estão sujos de óleo, petróleo e dinheiro, dinheiro este que adveio do lucro com os abortos de nossos bebês que realmente não merecem ver o que este mundo está se tornando. 
Escorre sangue pelas paredes do Congresso, escorrem lágrimas pelas bochechas secas das mães de nosso interior. Eu enlouqueço, raspando minhas unhas nas paredes da lucidez, pra ver se assim consigo estar mais próximo dela, sendo que ao passo que faço isso, a estaca da lamúria e da agonia insiste em me perfurar profundamente, o que não me deixa triste por final, tendo em vista a esquizofrenia apática que pulsa entre as pessoas, como um vírus, as fazendo vomitar sua bondade, suar sua compaixão, queimar o amor, realizando assim uma transfusão. Não existe sinceridade, não existe amor, não existe verdade, se tu achas que isso existe, estás perdido no passado, tão morto e compilado, se tu achas que estou mentindo, eu mesmo fui ao velório do passado, lembro-me bem, pois foi a última vez da qual consegui expressar um sentimento bom: Compaixão. Derramei lágrimas pelo passado que ali jazia, estava tão morto que nem sentia, que ali se esvaía, o último suspiro de alegria. 
Repudio a sociedade onde sobrevivo, pois a futilidade e a tolice reinam e parecem nortear as decisões de grande parte da população, por isso me abdico deste sangue puro, farei uma transfusão. Não nego meu intelecto, prefiro morrer sabendo que a sociedade já faleceu a tempos, do que viver na ignorância pensando que sou feliz.