quarta-feira, 7 de maio de 2014

Primeira Noite

 Sabe quando tu acha que nada pode dar certo pra ti?! Que o destino decretou fim e ponto final?! A vida parece caminhar para mais um momento soturno e distante dos sorrisos, estar pensativo se torna meu estado natural, o pensar nas consequências de tal época me fazem arrepiar, suar frio, e desacreditar. O fim de uma era áurea e regada a bons frutos, o início de uma era negra, sombria e obscura, que tende a me violentar constantemente, com esses desatinos dos quais a gente nunca espera, essa forma bisonha e grotesca que a vida tem de nos deixar pra baixo e relutante, desde o momento em que abrimos nossos olhos, até o momento em que o fechamos novamente para dormir. 
Pois é, esse mal do século tem me acometido, de maneira atroz e corrupta, encerrando minhas alegrias, tolhendo minhas esperanças, e arrancando de mim as paixões e prazeres da vida. Sei naturalmente que existem pessoas com problemas mais graves e sérios do que os meus, mas não posso deixar de analisar que os meus problemas são de uma gravosidade diferente, esses problemas me assolam a mente, espancam meu sono, vivem estapeando minhas esperanças, além de inibir e me iludir sobre possíveis amores e oportunidades. Parece torpe, banal e ingênuo,mas a partir do momento em que esses problemas se tornam intrínsecos a ti, e começas a perceber que não existe mais o que fazer acerca de tal assunto, tu vais ficar desesperado, perder aquilo que conquistastes, e batalhastes por isso, mas infelizmente, o sopro que a vida lhe deu foi em direção contrária. 
Estigmatizado pela vida fúnebre e sombria que levo, me atiro em sarjetas que ilustram contextualmente minha situação, me envolvo em situações de extrema insanidade mental e física, além de primar pela auto-destruição como um princípio basilar de vida. Carteiras de cigarro jogadas num mezanino, garrafas aleatoriamente distribuídas pelo quarto, e uma garota que dorme nua em minha cama, ainda sentindo a ressaca da noite anterior, noite esta que foi tão imprudente que não conseguimos contabilizar o número de garrafas despendidas nessa maquiavélica aventura carnal. 
Uma nota sobre a noite: Naturalmente afrodisíaca, com os perfumes femininos e risadas embriagadas, atraí os boêmios para um antro de perdição neurótico, com amores plásticos e garrafas de vidro, mulheres desgarradas e homens perdidos, sinto o cheiro do teu ódio exalar do coração, mas não está noite, onde me tens, e não está em solidão.
Podemos nos sentir o maior lixo deprimido que esta terra já viu, porém, quando nos abraçamos com a escuridão que segue cada letreiro de boate fétida e insuportável que nos chama, como num hino, disfarçamos nosso rancor, ódio e súplica por amor, num disfarce, de alter-ego, maníacos por carne, luxúria e prazer, soltos em um barril misturado com sangue, suor e desejo. Nos alimentamos de almas, sejam elas puras ou corrompidas, porque a partir do momento em que conhece um boêmio, uma alma se corrompe, ainda que este seja um buda, mas a noite não admite inocência. A noite é como a praga que infesta tua casa, mas por algum motivo extraterrestre, se torna uma simbiose e cativa todos os teus pensamentos. Nada melhor do que a noite, para curar sentimentos ressabiados dentro de uma mente sodomizada por uma paixão, nada melhor do que a noite para unir um casal que acaba de se conhecer, nada melhor do que a noite para poder abrandar sensações de culpa e rancor, além de sentimentos de amor, e nada melhor do que a noite para se despedir. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Tranfusões

Ultimamente, afásia e dúvidas constantes vem assolando o meu viver. Mas tudo bem, ao passo que me sinto e me torno cada vez mais sério, engessado, e pouco receptivo as interações que agora parecem muito estapafúrdias, e pouco aproveitáveis. 
Os olhares, a disputa da carne, o cerco que os homens fazem as mulheres, em busca de algo extremamente pífio e carnal, agora se torna vulgar e descartável sob o meu ponto de vista, o mundo cada vez mais se importa com questões pouco pontuais, e nesse passo rumamos para o triste desatino que é o fracasso. Fracasso. Fracasso. Regado por maquiagens tão superficiais, cabelos bem produzidos, frases de efeito que parecem ter saído da novela das nove, quanto o sorriso que outro dia recebi, de um olhar que passou despercebido. 
Perdeu-se a sensibilidade, o calor e o amor. Vivamos o tempo em que a religião é mais importante que o caráter, que o bolso é mais valioso do que os princípios, que o prazer é mais importante que a paixão. Onde a verdade é escondida e a mentira colocada num pódio, como sinônimo de orgulho, e ainda que a falsidade é motivo para sorrir, completamente corrompidos estão os cidadãos de bem, que não possuem mais o discernimento de encarar a podridão que infesta esse planeta, os esgotos que são as veias de nosso sub-mundo, cada vez mais se enchem de algo que é muito pior do que lixo: são os cadáveres de nossas crianças, atirados numa vala, cheios de resíduos de rancor, ódio, sofrimento, tristeza, raiva, violência e junto com tais cadáveres, está o nosso futuro, estuprado, violado, corrompido, violentado, reprimido, isolado, apedrejado junto com nossas esperanças, neste momento representadas por pombos, que antes eram brancos, mas estão sujos de óleo, petróleo e dinheiro, dinheiro este que adveio do lucro com os abortos de nossos bebês que realmente não merecem ver o que este mundo está se tornando. 
Escorre sangue pelas paredes do Congresso, escorrem lágrimas pelas bochechas secas das mães de nosso interior. Eu enlouqueço, raspando minhas unhas nas paredes da lucidez, pra ver se assim consigo estar mais próximo dela, sendo que ao passo que faço isso, a estaca da lamúria e da agonia insiste em me perfurar profundamente, o que não me deixa triste por final, tendo em vista a esquizofrenia apática que pulsa entre as pessoas, como um vírus, as fazendo vomitar sua bondade, suar sua compaixão, queimar o amor, realizando assim uma transfusão. Não existe sinceridade, não existe amor, não existe verdade, se tu achas que isso existe, estás perdido no passado, tão morto e compilado, se tu achas que estou mentindo, eu mesmo fui ao velório do passado, lembro-me bem, pois foi a última vez da qual consegui expressar um sentimento bom: Compaixão. Derramei lágrimas pelo passado que ali jazia, estava tão morto que nem sentia, que ali se esvaía, o último suspiro de alegria. 
Repudio a sociedade onde sobrevivo, pois a futilidade e a tolice reinam e parecem nortear as decisões de grande parte da população, por isso me abdico deste sangue puro, farei uma transfusão. Não nego meu intelecto, prefiro morrer sabendo que a sociedade já faleceu a tempos, do que viver na ignorância pensando que sou feliz.