domingo, 11 de agosto de 2019

Internação

NOTA AO LEITOR: SE POR UM ACASO TU ÉS UM BEATNIK, BARROCO, HEDONISTA, CULT, SENSÍVEL OU CRÍTICO DE ARTE, ACHO MELHOR NEM COMEÇARES O TEXTO, POIS AQUI HABITA A HIPERPLASIA DE MEU SOFRIMENTO.

Quebrei meu tornozelo em três partes, fratura exposta, isso fora os pontos nos dedos, queimaduras nas pernas e lacerações no corpo inteiro, até uma equimose pelo peso do gesso eu adquiri. Cheguei ao fundo do poço e ainda cavei um buraco. O contexto não interessa, de fato, não por orgulho ou nada, mas não é o cerne que pretendo trazer à baila em tal imbróglio, pois o que se busca aqui é tão somente a percepção que adquiri de que nada está tão ruim que não possa piorar, e quando digo piorar falo de maneira vertiginosa e vou me fazer cristalino até o final deste.
Sim, já me machuquei eventualmente, mas não como agora, os médicos acabaram de passar aqui e eu não tenho esperança, nenhuma. vou ter sequelas. Fui tomar banho, quer dizer, me deram um banho, e eu nunca me senti tão humilhado na vida, nunca me senti tão vulnerável, tão triste, tão sodomizado, se tu achas que pedir dinheiro a alguém é humilhante, imagine a sensação de não poder dar descarga, de não poder lavar o próprio rosto, é inigualável.
Os médicos lhe tratam com uma frieza ímpar, de uma forma tão desumana que beira a distopia. Vejam um cidadão todo lacerado e machucado pela vida e pelos traumas que sofreu, que sequer pode andar, sequer pode pentear o cabelo com a mão hábil porque a mesma possui uma agulha enterrada e a outra um furo vermelho desgastado de tantos medicamentos. Eu perdi tudo, absolutamente tudo, não possuo mais o respeito de ninguém, sou o mais jovem na sala de pré cirurgia, o mais agoniado, o mais triste, ninguém me respeita, porque não há o que respeitar em mim, meu ser se tornou esquálido, inexistente, cinza e pútrido. Não tenho mais dignidade, não tenho mais amor próprio, não tenho mais paixão nem admiração sequer pelo meu corpo, não que houvesse muita antes, mas exauriu, c'est fini. A derrocada para o fundo do poço foi mais rápida do que pensei, bati um recorde no timing, superei todas as expectativas do fracasso, da morte, da falha, da tristeza, da solidão, só de olhar para o meu pé sinto asco, de mim, como um todo, um ser eivado de sujeira, de podridão. Enlouqueço a cada minuto que passa aqui, já não consigo disfarçar a ansiedade, não tenho mais o que fazer, não tenho mais o que sentir, jogo minha massa cinzenta em textos vazios e paranoicos, me acabo em mim mesmo, me arrependo a cada segundo de minha pífia e inútil existência, sou o lixo, o chorume, o bacaca, o resto que mereço ser, o aborto mal sucedido, o peso na vida de todo mundo. Queria tanto ser o vilão que virei o pária, virei o nada, o esquecido, o renegado, a escória, agora só me resta esperar a corrosão do tempo, da alma, e pior, do cérebro, que anda me maltratando, me espancando a cada momento da minha vida, a vergonha, me sinto fraco, sujo, emasculado, tolo.
Adquiri o hábito de descascar as feridas do meu corpo, num ínterim de lacerar mais meu corpo, noutras de tentar cicatrizar de forma ignóbil e tola as marcas infinitas em minha pele, sinto o gosto de farmácia em minha boca, sinto o desprezo dos que me cercam, sinto o desprezo dos que estão lá fora, apenas pensando em si, apenas focando em si, minha presença não interessa, minha falta não é notada. Alguns até tem dó, pena, se padecem de forma genérica e comedida de minha fúnebre situação, porém, prefiro mantê-la em sigilo, não quero mais azar do que já contraí, se é que é possível. Sigo como uma bailarina russa, em Vladvostok, dançando e acompanhando as nuances da ópera, onde saio do ápice para o cume numa reviravolta homérica digna de fazer inveja a Shakespeare e descompassar até mesmo Rezso Seress, e pasmem, ser mais lúgubre do que Giovanni Bragolin, em cada uma das lágrimas de suas crianças. Sou o que se chama de sinfonia do fracasso, ode ao trágico, exaltação ao desespero. NÃO, NÃO ESTOU ME VITIMIZANDO, SÓ PASSO PELO MOMENTO MAIS CONSTERNADOR DE MINHA VIDA, ESTOU SEM SAÍDA, SEM FÔLEGO, SEM PERSPECTIVAS, SEM NORTE.A CADA AÇÃO AQUI NESSE HOSPÍCIO EU SOFRO MAIS, ME DECOMPONHO MAIS, MINHA DIGNIDADE NÃO EXISTE, DEPENDO DE PESSOAS QUE NÃO CONHEÇO PARA TUDO, MEU DEUS QUE EXÍLIO PURGANTE...
Não consigo realizar minhas necessidades sozinho, não faço nada além de passar o dia todo deitado, lendo, escrevendo, pensando, chorando, me arrependendo, pensando em todos que estão vivendo suas vidas incríveis, motoras e ativas, as faculdades voltando, trabalhos, e eu aqui esquecido no ostracismo como uma tragicomédia de Nietzsche, como o final de vida de Ernie Hemingway, como a última garrafa de  Bukowski. Não tenho o que fazer, o que pensar, além de me arrepender e deixar a ansiedade, paranoia e depressão me corroerem, como o pior ácido sulfúrico existente,, apenas sentindo as relações interpessoais se esvaírem aos poucos, grão a grão, assim como minha vida, assim como meu gosto pela ternura do viver, que já existiu em outrora.
Me sinto volta e meia, claro que não no mesmo nível pasmem, como o protagonista do filme Como Eu Era Antes de Você, filme este que me foi apresentado pelo amor de minha vida, a alma mais doce que tive o prazer de conhecer, a figura mais etérea, harmônica e contumaz já existente, tão fluída quanto a Sonata número 08 em dó menor de Beethoven interpretada por Stephen Kovacevich, enfim, são comparações até inocentes em virtude da magnitude desta beldade única em um jardim de flores raras, onde se destaca com facilidade, não precisando de atenção, mas de muita sensibilidade.
Voltando ao filme, me sinto como um decrépito, egoísta, turrão, mal humorado, desprezível  e amargo, que necessita de atenção o tempo inteiro, ainda que de forma distorcida, horrenda e terrorífica, me deixando levar pelo Caronte para as profundezas mais sombrias dos mares inóspitos de Hades, afogado em cinzas e morte, carregado de trevas. Volta e meia por meu mal humor, trato mal algum ente querido, verbalizo alguma paranoia, enalteço a depressão, me sinto fugazmente ansioso, e acabo perdendo o pouco que me resta de humanidade, de contato com o mundo externo, e isso me destrói, me destroça, seja lá como quiser.
Peço perdão a todas as pessoas que tratei mal, que desgastei, destratei, que de alguma forma eu causei transtorno ou maleficência, sinceramente, e posso vos dizer que estou pagando por todo o mal que fiz, neste exato momento em que vos escrevo, como a sinfonia de Prokofiev, alterno entre escuridão e altivez, mas nunca felicidade, nunca alegria, pago pelos meus pecados inconsequentes amargurado, querendo sentir o sabor tirânico da morte, tentando provar de uma vez por todas que não mereço a existência, debilitado não consigo me conter dentro de meu decrépito corpo, não me controlo, tenho espasmos noturnos, pesadelos, como em um filme de Hitchcock, como um caminhão desgovernado... Me sinto como mais um que fracassou, mais um perdedor. Aqui os velhos gritam durante a madrugada, num quarto compartilhado, cheio de calor, suor, loucura, onde não há um minuto de paz, não existe "hora para dormir", se alguém resolver pirar que se foda quem está ao seu lado, que se  foda a regularidade, todos entram e saem na hora em que bem entendem, num frenesi onde acompanhantes conversam alto enquanto pacientes tentam dormir. Velhos amputados gritando, velhos com pinos no joelho dando risada e roncando alto, enquanto um outro com bolsa de colostomia (pobre senhor) não consegue conter as necessidades e infesta o ar com tal odor. Tudo aqui é doído, tudo aqui é um processo, nada é natural, as pessoas não ligam de fato pra ti, se curar ok, se morrer, mais um, ó trabalho, aqui ninguém tem amigo nenhum, é simples assim. Num dia tu estás bem, no outro um inferno, um caos, não há constância, não há ordem, lógica, métrica, matemática, resultado possível, são vômitos e gritos quase que o tempo todo, pense num mix de hospício, com presídio, com hospital, tudo em péssimas condições, com um péssimo tratamento, desumano, inóspito por assim dizer, e não ouse ficar beligerante, pois o caos e a indiferença podem te engolir. É tudo tão sórdido, tão caótico e dantesco, que não vislumbro pior cenário do que esse. 
O que me faz respirar e manter um pouco a sanidade é a minha honesta e dedicada família.

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