quinta-feira, 9 de março de 2017

Astro de Luz Própria

É tão estranho, me sinto como uma simbiose que ataca os hospedeiros e lhes suga a vitalidade, e assim segue rumando para pensamentos funestos e lúgubres. É como se o amanhã não existisse, e tampouco o sol, esse astro que dizem aquecer os corações das almas vazias, ou abrilhantar os quilômetros extensos dos rios, lagos e mares. Pois é, esse sol deixou de existir na minha vida, é algo curioso, pois o seu sumiço afetou não só este coração vazio que vos conta, mas fez milhões de vítimas nesta última semana. 
Tão abrangente e impiedoso foi o desaparecimentos do sol para algumas pessoas que criou não só tristeza e solidão, mas também infestou nosso mundo com discórdia, intolerância, ódio, preconceito e rancor, deixando um rastro de destruição onde se sentisse a falta deste. 
Contando os feridos e as baixas, os desalmados seguiram para uma realidade distópica e vertente, calcada em pilares corruptos e sujos, cercada de putrefação social, implorava-se pelo fim do mundo e, de fato, seria bem melhor do que viver na escuridão insólita e enfadonha do qual nos encontrávamos. 
O cheiro que se sentia na verdade era um fedor, mas por ser a menor das preocupações se tornava agradável, e o maior prazer que se podia ter era a erma e falha lembrança dos dias que foram melhores, perfeitos na verdade, porque depois de conhecer esta realidade psicótica e odiosa o inferno nos parecia uma boa ideia. 
Conseguinte, seguimos marchando ao nosso fim que pouco importava naquele momento, o que nos incomodava era o fato de morrer sem sentir pela última vez o calor penetrar em nossas dermes, sendo brindados com o privilégio de sermos iluminados pelo agressivo astro solar e, acima de tudo, poder sentir esperança num futuro que na atual conjuntura parecia mais do que utopia, parecia até prepotência ter este tipo de esperança. 
A nossa crença existe por vários motivos, um muito latente em nossas vidas especificamente: o medo da morte. Não saber quando de fato vai se encerrar o ciclo, se este se renova, a maior surpresa da vida é a morte. 
Neste período de cinzas e sofrimento o maior medo que reinava era da própria vida, que castigava os miseráveis desalmados, e a única crença que se alimentava e prosperava entre nós, os incautos castigados, era a de que com certeza haveria mais sofrimento. 
É neste cenário desastroso e grotesco, onde não há sequer o sol para derreter as geleiras de tristeza que tudo parece desabar, onde tudo que um dia foi bom se escondeu na mente cansada de um velho decrépito, acometido pelo mal de Alzheimer, velho este que se adoentou pela ganância, avareza, luxúria, que sofre diariamente por suas escolhas repulsivas e egoístas do passado. Este senhor deprimente representa nossa sociedade, com um arrependimento sagaz e devastado, um adolescente que envelheceu da pior forma possível, que foi sempre mimado, que nunca ouviu uma negação, que sequer teve uma escolha difícil a fazer, e mesmo com esses mecanismos facilitadores se tornou um ser intragável, cheio de si e precipuamente megalomaníaco. 
Sociedade demente, fútil e imbecil, que valoriza coisas que não pertencem a categoria de valores sequer. Despreza o amor, a lealdade, a amizade sincera, que ignora as coisas simples para valorar costumes repulsivos; sim nós sentimos algo incontrolavelmente repulsivo por esta situação. 
Era tão simples, mas tudo se complicou, existe um ditado que explicita: "Só se dá valor quando se perde". Agora tudo faz sentido, porém, não faz diferença, não existe a mera possibilidade de pensar em retornar, seria muita audácia pensar, ponderar ou cogitar isso. 
Então, a sinfonia do fracasso dá início a cerimônia nem tão solene, o colapso de todos nós é cada vez mais eminente, lágrimas tão inúteis, gritos de desespero e clamores por piedade já são corriqueiros, discursos de grandeza e liderança já são considerados um sacrilégio, blasfêmia, heresia e totalmente puníveis (como se houvesse punição pior do que a corrente). 
Pois é meus caros, agora entendemos por quê o sol foi embora, e assim o coração vazio do velho decrépito parou. 
P.S. Para aquele que quiser ousar, ser audacioso, e ultrapassar a barreira de sucumbência do sol, tenha esperança pois sempre haverá uma saída otimista que pode levar ao caminho da prosperidade e paz. Se o sol se retirou, confie na luz que emana da Lua, astro de luz própria. 

Guilherme Pollaco

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